O flerte do vento
por Risonete Almeida - 21/10/2011

Fonte: Google

 

 

 

 

 

 

 

 

Ontem à noite ele chegou devagar, até silencioso

Mas logo percebi que veio com segundas intenções

Estava uma calma sem igual

E nem sei como ele entrou porque portas e janelas estavam fechadas

Eu, sozinha, sentada na sala continuei o meu diálogo com Dell

Mas ele queria ser notado e logo soprou meus cabelos

Resolvi me proteger

Corri, coloquei casaco, calças e meias

Insisti no diálogo com o companheiro Dell

O vento muito atrevido também insistiu, e percebeu a fragilidade de meus cabelos

Que logo se assanharam e tiravam a minha concentração

Decidi fugir daquele assédio, fui colocar uma touca

Já me direcionando para o quarto pude ver a alegria das flores na mesa da sala

Estavam aliviadas, não havia mais concorrentes

Observei que o vento ali estava ainda silencioso, mas persistente

As flores sobre a mesa pareciam dominadas por ele

Sorriam, se agitavam, uma esbarrava na outra

O vaso parecia não suportar tanta euforia

A qualquer hora elas abandonariam o vaso e cediam aos apelos do sedutor

No quarto parecia tudo muito calmo

Entrei, tranquei a porta e me espalhei na cama

Estranhei a apatia da cortina na janela com frestas

A sensação de que o sossego guarda surpresas tomou conta de mim

Desconfiada observei a cortina e a janela por algum tempo

Tudo sob controle

Ele se contentou com as flores, pensei

Resolvi então deixar a porta do quarto aberta

Não demorou muito e lá estava ele mais uma vez

Chegou atrevido, barulhento, espaçoso

Sacudindo a cortina e cantando alto, se sentindo o dono do pedaço

Ela não resistiu aos assobios

Abria e fechava freneticamente querendo enlaçar o vento

Ele, malandro, fugia, voltava, sorria, brincava, cantava, aprontava

Observei que a porta dançava satisfeita

Ela sorria, rangendo freneticamente

A porta!!!

Era ela quem dava força ao vento

Como não havia percebido antes?

Levantei e fui em sua direção

Ela desconfiou, deu um grito, foi rápida

Bateu tão forte que nem me deu chance

Resolveu ficar assim a noite toda

Dell decidiu dormir, estava cansado daquela conversa off line

Fiquei ali observando o vento se despedindo da cortina

A cortina ficou muito triste, era tão cedo e o vento se foi

Aposto que aprontaria em outros cantos

Adormeci

Ao levantar logo cedo, abri a porta do quarto

Estranhei o silêncio dela

Logo descobri a cumplicidade

O cenário na sala denunciava a farra de um baile de apaixonados

Algumas flores sorriam desconfiadas, jogadas sobre a mesa

Outras dormiam encolhidas no chão

Uma rosa discutia a relação com o vaso despedaçado

Outra, vermelha de vergonha, juntava suas pétalas

Na cozinha os guardanapos cochichavam o acontecimento

Alguns dançavam imitando o que viram

No banheiro os tapetes riam de se embolar

As toalhas, acostumadas com as investidas do vento, aconselhavam uma pequena rosa apaixonada

Sentei na sala com Dell, mas alguém batia na porta

Lá estava ele do lado de fora

Feliz, enérgico, uivando

Desconfiado e fingido

O vento pedia permissão pra flertar

 

Risonete Lima de Almeida é professora do Campus II da UNEB, atua no Colegiado de Letras Estrangeiras, e é pesquisadora do Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação e Linguagem – GELING/UFBA.




2 respostas para “O flerte do vento”

  1. Com certeza, estes que flertam (e de forma tão arrebatadora), são os melhores ventos!
    Lindo!

  2. Cristina Ribas disse:

    O flerte do vento é sem dúvida uma forma forte, expressiva e arrebatada de paixão. Revela a volúpia, a fantasia,o envolvimento sem compromisso. Coisaaaaa lindaaaaa!
    amei!

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