Resenha: A Menina do Dente Mole

Por Lúcia Leiro

 

A Menina do Dente Mole, de Nadja Nunes

Quando a escritora Nadja Nunes lançou o seu primeiro livro A Menina que Tinha Medo do Vento, disse naquele momento que era uma debutante com o talento das veteranas.
Em A Menina do Dente Mole, a escritora baiana confirma o que havia dito. Desta vez, nos conduz à nossa memória, chamando-nos a atenção para uma das experiências mais marcantes na vida de uma criança: a perda dos dentes de leite.
Essa experiência é narrada por meio de uma linguagem ágil, divertida e cheia de peripécias, estas realizadas pela protagonista, Jujubinha, uma menina inquiridora e esperta, que faz e desfaz a tessitura narrativa com as idas e vindas enunciativas próprias das crianças que começam a interagir com o mundo, buscando sentidos para os seus momentos tão peculiares. É em razão destes momentos que Jujubinha conversa com a sua avó, uma mulher sábia, que encontra respostas, ou pelo menos induz a menina a encontrá-las, para as suas dúvidas.
A força da protagonista é tão marcante que a voz da narradora por vezes cede à vontade da menina que conduz o movimento da narrativa e da leitura. No texto, Jujubinha pede à avó que postergue a retirada do dente mole, no que é atendida com a intervenção da Fada do Dente Mole, mas quando ela vê as amiguinhas do colégio sem os dentes, muda de ideia, e pede que a avó fale novamente com a Fada para proceder à retirada. Neste ínterim, a avó vai negociando com o tempo e atenuando a ansiedade da menina, até que o dente é retirado sob os olhos admirados da neta.
Jujubinha e a sua avó são inseparáveis e dessa relação nascem as histórias mais mirabolantes e significativas para a vida da menina. Percebemos também que a interação entre a avó e a menina transforma a vida de ambas, pois é por meio desta relação que se estabelece afetivamente a ponte que une gerações distantes, facilitando para a menina as experiências das perdas, afinal trata-se de uma parte do seu corpo que se separa, e para a avó que reinventa a sua identidade ao atuar como agente facilitador desse processo. A avó, assim como a mãe, é um pouquinho de cada coisa, inclusive “sabe até tirar dentes”.
A Menina do Dente Mole é uma narrativa encantadora que certamente cairá no gosto das crianças e adultos. E como é uma história que nos faz lembrar outros tempos, recordo-me de que a minha mãe costumava guardar os dentes de leite em uma caixa, assim como fazia com o primeiro corte dos nossos cabelos (retirava uma ponta, prendia uma das extremidades e guardava). Existem ritos familiares que às vezes se perdem no tempo, mas as experiências jamais serão esquecidas, afinal quem não se lembra do momento em que o primeiro dente de leite começou a amolecer? Diante do espelho, com o dedinho indicador, balançávamos para trás e para frente, num misto de curiosidade, medinho, sentindo já as primeiras mudanças que o tempo nos trazia. E como é importante ter uma avó para nos confortar nessas horas.
NUNES, Nadja. A Menina do Dente Mole. Salvador: Ed. Contexto & Arte, 2011.
O livro pode ser encontrado na Livraria Cultura e na Editora da UNEB. 3117-5342 - http://eduneb.uneb.br/
Fonte: Mulher e literatura.




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