RESENHA: A vida dentro da história

A MENINA DO DENTE MOLE, DE NADJA NUNES: A VIDA DENTRO DA HISTÓRIA

A leitura carece da mobilização do universo de conhecimento do outro – do leitor – para atualizar o universo do texto e fazer sentido na vida, que é o lugar onde o texto realmente está. Eliana Yunes, Tecendo um leitor, p.9

No trecho em epígrafe, a pesquisadora brasileira de leitura e literatura infantil e juvenil Eliana Yunes mostra que o ato de ler só faz sentido no ato de viver. Escrever para crianças exige do escritor um conhecimento profundo, atento e emocionado do universo infantil, onde imaginação, fantasia e realidade se constroem mutua e continuamente. Exige que o escritor mantenha viva a criança dentro de si e a leve para junto das crianças reais que o cercam.

Nadja Nunes, em A menina do dente mole, costura a infância que viveu e manteve viva em seu coração às infâncias concretas e imaginárias que a cercam, construindo uma prosa rica em referências (e interferências) de vida e literatura. Logo de início, pode-se perceber seu respeito pela criança como sujeito: Jujubinha, mesmo aos cinco anos, “manda” em seu corpo e tem muito bem determinadas suas vontades.

Que criança, de ontem e de hoje, não gostaria de ser dona de si? Qual menino ou menina não gostaria de decidir quando crescer, quando ficar pequenino, quando e como deixar as fraldas, jogar fora a mamadeira ou trocar os dentes? E que angústia – podemos todos puxar a memória e reviver nossos primeiros anos… – que angústia, repito, não sentimos ao perceber nossos dentinhos pendurados na boca, incomodando, dando medo do depois, nos indicando silenciosamente que estava chegando a hora de sair do colo gostoso da avó?

Meus dentes de leite eram tirados também por minha avó, que amarrava um barbante na maçaneta da porta e a fechava com força. Bem menos carinhoso, esse processo, no entanto, me rendia beijinhos e sopinhas e sorvetes… Outros tempos, outras avós. Na minha infância, a criança tinha pouco ou nenhum querer e os pais e avós precisavam ser disciplinadores.

Por sorte de Jujubinha e das crianças de verdade de hoje, aos pequenos é permitido escolher e aos pais e avós – principalmente aos avós – é permitido amar antes de tudo. Na obra de Nadja Nunes, a criança assume seu querer e percebe que ele não precisa ser o mesmo “para sempre”.

Essa concepção de infância – e de leitor infantil – torna o corriqueiro ato de arrancar um dente de leite, amolecido pelas estrepolias de uma menininha linda de cinco anos de idade, um ato múltiplo: implica amor, confiança, valorização da experiência dos mais velhos e das vivências dos tão jovens. Ao desenhar a personalidade de Jujubinha, a escritora lhe confere tudo de que se precisa para viver: coragem, determinação, vontade própria e firmeza para mudar de idéia, conforme as exigências cotidianas.

Na construção do volume conta muito, também, o processo de ilustração. Lado a lado com o texto, as imagens da avó, da neta e de seus amiguinhos vem, prioritariamente, em cores pastéis, com ênfase para tons de verde, quando Jujubinha não quer perder os dentes, e cores mais fortes, com prevalência de roxo e rosa, quando Jujubinha muda de idéia e decide perder os dentes de leite. Essa variação na paleta de cores pode levar ao leitor um caminho de identificação entre si e Jujubinha. E isso pode indiciar, ainda, que à criança de hoje é facultado o direito de escolher como e quando deixar a infância para trás.

Explico-me: o texto-palavra representa explicitamente o domínio da criança sobre sua própria vida, com auxílio das mãos carinhosas e dos ouvidos pacientes da avó; o texto- imagem, por outro lado, torna visível essa mudança, colocando no plano do olhar as relações culturais representadas. Palavra e imagem casam-se perfeitamente nesse livro, especialmente no que se refere à busca da identificação entre possível leitor e obra.

Mas a que leitor esse livro se dirige? A meninas e meninos jujubinhas… Ou seja: às crianças que se incomodam com as conseqüências do crescimento físico e emocional e que procuram dominá-las, para não se sentirem perdidas diante da vida, contando com avós amorosas para ajudá-las.

Perder os dentes de leite implica sair da infância. Por um lado, isso é muito ruim para qualquer criança, pois ela fica insegura, ainda não se conhece direito, nem o mundo que a cerca. Por outro lado, isso é muito bom, implica independência, liberdade. Os dois lados funcionam melhor quando à criança é permitido vivê-los pelas mãos e pelas palavras de quem a ama: avó, avô, mãe, pai.

Uma Dona Benta contemporânea e reinventada: essa é a avó de Jujubinha. Aquela que todas as crianças querem ter.

Para nós, adultos, esse livro é um mergulho nas lembranças boas e ruins de nossa infância – ao fim e ao cabo, sempre boas. Para os pequenos leitores, é uma janela que se abre para a experiência da arte que se mistura à vida.

Representando a união entre o passado e o presente, como limites de respeito aos valores de cada pólo da existência humana, o livro aqui apresentado rescende a amor, o mais puro que existe, o que realmente troca e faz crescer. E Jujubinha traduz esse amor em sua última fala, recheada de admiração:

Às avós que sabem fazer do dente de leite arrancado uma vitória, um grito de liberdade; às netas que sabem aceitar e reinventar todos os atos de amor de avós, mães e pais – o livro A menina do dente mole é uma deliciosa viagem que a autora Nadja Nunes lhes dedica. É uma homenagem e um ato de amor.

Vale muito a pena ler este livro.

Patrícia Pina

Caetité, 03 de abril de 2012

REFERENCIAS:

NUNES, Nadja. A menina do dente mole. Ilustrações de Rodrigo Cyarzabal Schiabitz.
Savador: Contexto & Arte em Salvador, 2011.
YUNES, Eliana. Tecendo um leitor: uma rede de fios cruzados. Curitiba: Aymará, 2009.




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