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ALAGOINHAS E SEU MUNICÍPIO

Autor(es):  Americo Barreira

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Sinopse

Publicada originalmente em 1902, nas tipografias do jornal local – O Popular – e, depois de várias décadas em que o seu conteúdo estivera diluído em outros escritos sobre a cidade de Alagoinhas, a obra que ora se encontra nas mãos de leitores interessados em conhecer o seu conteúdo como um todo, bem como as possibilidades de pesquisas historiográficas que ela possa vir a oferecer, se encontra ao dispor de tantos quantos aguardaram ter a oportunidade de lê-la em sua integralidade, visto que, durante muito tempo, ela esteve fora de circulação e, escondida do público em geral. Aqui, ela será republicada em seu escrito original, tanto no que diz respeito à grafia utilizada ao final do século XIX e início do XX, quanto no que diz respeito ao português clássico, que era falado à época pela elite letrada da qual Americo Barreira fazia parte. Tal se dá, conforme entendem as demais pessoas envolvidas na tarefa de publicar esta segunda edição, pelo fato de proporcionar ao leitor uma oportunidade de tomar contato com a aludida obra na linguagem que marcava o falar e o escrever dos seus leitores primevos.

Detalhes do Produto

EditoraEduneb/Edufba
Altura22
Largura 15
Página250
Peso0,360
Edição1
Ano2026
IdiomaPortuguês
ISBN978-65-89492-47-4
CDD981.42
BISACLCO002030
ThemaD
CategoriaCiências Humanas;
História;
Lançamento

SOBRE O(S) AUTOR(ES)

Américo Barreira foi um médico, jornalista e escritor cearense do final do século XIX e início do século XX, conhecido também por sua atuação ligada ao municipalismo e por registros históricos importantes

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Projeto Resenhas EDUNEB: Corporeidades, feminilidades, homossexualidades e transexualidades

RIOS, Pedro Paulo Souza (org.). Corporeidades, feminilidades, homossexualidades e transexualidades: constituição de identidades de gênero. Salvador: EDUNEB, 2023.

Resenha de Anajuly Eça Gomes Lopes.

Leia a resenha também no SKOOB:

https://www.skoob.com.br/pt/book/122694693/reviews

O livro “Corporeidades, feminilidades, homossexualidades e transexualidades: constituição de identidades de gênero”, organizado por Pedro Paulo Souza Rios e publicado pela Editora EDUNEB em 2023, apresenta um conjunto de textos que abordam diferentes narrativas sobre corpos dissidentes na sociedade normativa, tendo como uma de suas principais perspectivas a escrita de si.

Escrito por Megg Rayara Gomes de Oliveira, o prefácio apresenta o contexto sociopolítico e as motivações para a produção da obra. O período de 2018 foi marcado pela intensificação de discursos e ameaças direcionados a minorias, como a população negra e a comunidade LGBTQIAPN+, além de ataques à educação e à produção científica. Nesse contexto, a produção acadêmica é apresentada como um ato de resistência na luta contra o fascismo. A obra reúne textos autobiográficos, críticos e analíticos que questionam as instituições, a sociedade e os binarismos, a partir de reuniões realizadas pelo Grupo de Pesquisa e Estudos em Gênero e Sexualidades no Sertão (GENESIS-Sertão).

Ao longo da obra, o corpo é apresentado como “territórios de disputa” (p. 15), uma vez que a presença de corpos dissidentes provoca desconfortos em ambientes regidos pela perspectiva normativa, sendo alvos de silenciamento e cerceamento. Nesse sentido, os textos discutem o papel das subjetividades no processo formativo e pedagógico do ser, que, desde o nascimento, são constantemente questionadas pela noção do padrão de corpo que é construído socialmente (Mauss, 1974, apud Cardoso, 1994).

Instituições como a escola e a família aparecem como espaços que produzem expectativas de gênero, raça e comportamento, produzindo estigmas e formas de disciplinarização dos corpos. A Educação Física é um exemplo apresentado nos textos, que, em vez de ser um componente para incentivar o movimento e promover a conscientização da diversidade de corpos, ainda reproduz estereótipos que aprisionam o ser.

Em contrapartida, a educação também é colocada como ferramenta de transgressão, na qual corpos marginalizados têm a possibilidade de escrever a sua própria história e denunciar violências. A universidade pública aparece, dessa maneira, como espaço de transformação do sujeito, possibilitando o contato com diferentes experiências e a reflexão sobre a própria trajetória. Essa perspectiva pode ser observada na narrativa de Laíse de Souza Nascimento, no texto “Entrelaçando histórias de vida pessoal e acadêmica: (reconstrução do ser mulher da roça)”, em que a formação escolar e acadêmica se relaciona à construção da autonomia e empoderamento.

Dessa forma, a coletânea de textos elucida questões sobre o corpo enquanto lugar transitório e mutável, passível de transformações, mas que, a todo momento é convocado ou coagido a se adequar às normas sociais. A obra mostra também o papel da educação enquanto agente que pode contribuir, positivamente, para a formação dos sujeitos e para sua transformação, mas que, ao mesmo tempo, possui práticas pedagógicas que, desde a infância, incentivam os indivíduos a seguir determinados comportamentos e a se enquadrar em papéis de gênero.

Projeto Resenhas EDUNEB: ENTRE OS MUROS DA EXCLUSÃO

ENTRE OS MUROS DA EXCLUSÃO TRAJETÓRIAS DE “ALIENADOS” NA BAHIA (1903-1916) SEPÚLVEDA, P. M. Entre os muros da exclusão [online]. Salvador: EDUNEB, 2023

Resenha de Maria Vitória Coutinho e Silva Figueiredo de Almeida.

Graduada em Licenciatura em Ciências Sociais e graduanda em Bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB).

Leia a resenha também no SKOOB:

https://www.skoob.com.br/pt/book/122694438/reviews?filter=recents

1. APRESENTAÇÃO DA OBRA

A presente resenha tem como objetivo realizar uma análise descritiva e crítica da obra Entre os muros da exclusão: trajetórias de “alienados” na Bahia (1903-1916) (2023), publicada pela Editora da Universidade do Estado da Bahia (EDUNEB). Escrita por Patrick Moraes Sepúlveda, mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da UNEB, a obra apresenta os resultados de sua pesquisa de mestrado, desenvolvida a partir de diversas fontes documentais, entre elas periódicos de circulação popular e científica, a Gazeta Médica da Bahia e diferentes jornais da época. Estruturado em dois capítulos, o livro analisa as relações entre saúde mental, história, loucura e psiquiatria no contexto baiano. O primeiro capítulo aborda o cenário da psiquiatria e sua relação com a instituição asilar, enquanto o segundo analisa as trajetórias dos chamados “alienados” no período delimitado pela obra, discutindo também as concepções de loucura em circulação nos séculos XIX e XX.

2. RESENHA DESCRITIVA E CRÍTICA DA OBRA

Como ponto de partida para a pesquisa, o historiador formula questões centrais que orientam sua investigação: “O que era considerado loucura na cidade de Salvador? Quais os critérios utilizados pelos psiquiatras para explicar as doenças mentais? Como os alienados reagiram à disciplina institucional?” (p. 7). Essas perguntas são fundamentais para a constelação de ideias que norteia a obra, servindo de base para as análises e reflexões desenvolvidas ao longo do livro. O autor parte da concepção de que os ditos alienados eram caracterizados, primordialmente, por não se adequarem aos padrões comportamentais idealizados na época e, por isso, eram considerados socialmente indesejáveis. Essa perspectiva, defendida pela classe dominante, sustentava que a circulação desses indivíduos pela cidade representava riscos à ordem social, legitimando, assim, a necessidade de uma instituição destinada à sua reclusão.

Para este trabalho, Sepúlveda recorre aos estudos sobre o Asilo São João de Deus, a primeira instituição manicomial da Bahia, fundada em 1874. A partir dessa análise, o autor examina casos de reclusos, como os de Aprígio Bacellar Aranha, Joaquim Pereira Navarro e Pedro da Silva Rego, pacientes da instituição entre 1912 e 1914.

Ao evocar casos de pacientes, o autor recorre a uma fundamentação teórico-metodológica orientada pela História Social Inglesa, à luz das contribuições de E. P. Thompson, partindo da compreensão de que as ações dos sujeitos são complexas e constitutivas das dinâmicas sociais. Nessa perspectiva, evidencia-se que, mesmo em contextos de exclusão, os sujeitos participam e interferem na construção dessas dinâmicas. Além da História Social Inglesa, autores como Foucault e Chalhoub contribuem para o debate sobre a loucura. Foucault (2002), relaciona a loucura à exclusão social, enquanto Chalhoub (2012) evidencia a influência da produtividade econômica na perspectiva médica, que categorizou como alienados aqueles considerados sem potencial produtivo.

Na Europa, nos séculos XIX e XX, constituiu-se a concepção da loucura enquanto algo a ser estudado, marcada pela associação às emoções e à degenerescência biológica, com médicos como Philippe Pinel e Emil Kraepelin. No Brasil, a literatura médica do Primeiro Período Republicano alinhava-se às ideias do racismo científico e do higienismo, apontando a população negra e pobre como predisposta à loucura, à violência e à inferioridade racial. Desse modo, o autor evidencia como as desigualdades sociais influenciaram a compreensão da loucura e contribuíram para o surgimento de estratégias de reclusão voltadas aos indivíduos considerados prejudiciais à ordem social.

A obra pode ser considerada uma importante referência para os estudos em História da Ciência e sua intersecção com as políticas de saúde, ao evidenciar que as condições de saúde e as formas de tratamento não são determinadas apenas por fatores biológicos, mas também pela posição social dos sujeitos e pelas relações de poder. Ao abordar casos como os de Joaquim Pereira Navarro e Pedro da Silva Rego, o historiador evita julgamentos morais maniqueístas e evidencia a complexidade dos comportamentos em seus contextos sociais. Nesse sentido, o Asilo São João de Deus não deve ser compreendido, apenas, como instituição hospitalar, mas como um espaço marcado pela contradição e atravessado por uma mentalidade de controle social, na qual ciência, saúde e poder se articulavam na definição e na reclusão dos chamados “alienados”.

Projeto Resenhas EDUNEB: Traços da Periferia

SALES, Karina Lima. Traços da periferia: política e performance em produções literárias marginais-periféricas contemporâneas. Salvador: EDUNEB, 2022, 234 p.

Resenha de Catharine Simões de Freitas Santos.

Discente do curso de Licenciatura em Letras – Língua Espanhola e Literaturas, 8º semestre, Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Departamento de Ciências Humanas – Campus I, Salvador/BA.

Leia a resenha também no SKOOB:

https://www.skoob.com.br/pt/book/122692458/reviews

Traços da periferia: política e performance em produções literárias marginais-periféricas contemporâneas, de Karina Lima Sales, foi publicado pela Editora da Universidade do Estado da Bahia (EDUNEB), em Salvador, no ano de 2022. Com 234 páginas, a obra corresponde à versão da tese de doutorado da autora, defendida na UFMG sob orientação de Graciela Ravetti. O livro parte de uma pergunta ambiciosa: em que medida as noções de política e performance regem a escrita, a circulação e o consumo da literatura marginal-periférica brasileira contemporânea, e que estratégias de agenciamento político-cultural os próprios escritores constroem para sustentar esse movimento? Para respondê-la, a autora escolhe três nomes — Allan Santos da Rosa, Dinha e Sacolinha — e organiza o livro em quatro grandes blocos: a genealogia e a nomeação do movimento; seus desdobramentos estéticos e políticos; a análise das obras propriamente ditas sob a chave da performance; e, por fim, o estudo dos selos e projetos criados por cada autor. É um percurso que caminha do conceito para a prática, e da prática para a reflexão teórica — um movimento que espelha, de certa forma, o próprio objeto de estudo: uma literatura que nasce da vivência e se transforma em ação coletiva organizada.

Um dos aspectos mais interessantes da construção do livro é a diversidade genérica das obras selecionadas para análise. De Allan Santos da Rosa, Sales examina o texto teatral Da Cabula e o livro de contos Reza de mãe; de Dinha, os poemas De passagem mas não a passeio e Onde escondemos o ouro; e, de Sacolinha, Contos de 85 letras e Um disparo e Brechó, meia-noite e fantasia. A autora é explícita quanto ao motivo dessa escolha: como o estudo não pretende estabelecer uma análise cotejada das obras, observando, por exemplo, recursos formais e estilísticos entre os autores, torna-se possível “trilhar um caminho de liberdade entre texto para teatro, poemas e contos, sem afetar o estudo”, concentrando-se nos estilos, nas temáticas e nos elementos que permitem configurar cada publicação como escrita performática. Essa liberdade metodológica funciona, no desenvolvimento da obra, como uma espécie de espelho da própria liberdade temática e formal que atravessa a literatura marginal-periférica. Essa relação permite também uma leitura metafórica da própria estrutura do estudo.

A liberdade com que Sales transita entre diferentes gêneros literários parece espelhar a liberdade reivindicada pelos autores marginal-periféricos em suas obras: a liberdade de existir, de falar por si mesmos e de representar suas experiências sem se submeter às classificações e expectativas impostas por um olhar externo e frequentemente restritivo sobre a periferia. Assim como os escritores recusam limitar suas identidades, suas formas de expressão e suas vivências aos estereótipos historicamente atribuídos aos sujeitos periféricos, a pesquisadora recusa limitar sua análise a um único gênero. A pluralidade formal, nesse sentido, torna-se também uma metáfora da pluralidade das vidas que essas obras procuram afirmar. Assim como os autores estudados não se restringem a um único gênero para expressar suas urgências, transitando pelo teatro, conto e poesia, entre outras formas, a pesquisadora também não estabelece um recorte genérico rígido para analisá-los. Desse modo, a pluralidade formal das obras dialoga com a multiplicidade de vozes, experiências e realidades presentes nas periferias, reforçando uma compreensão central apresentada por Sales: a periferia não constitui um espaço homogêneo e, consequentemente, não produz uma literatura homogênea. Ao contrário, trata-se de um espaço constituído por diferentes sujeitos e experiências, que não permitem apontar para uma identidade única.

Essa pluralidade formal das obras encontra fundamento na própria concepção de periferia desenvolvida por Sales. Para a autora, a periferia não pode ser compreendida como um espaço homogêneo, mas como um conjunto de territórios e experiências marcados por diferenças sociais, culturais e históricas. Apesar de, frequentemente, ser reduzida pelo imaginário social, a um lugar associado à criminalidade e à exclusão, a periferia abriga múltiplas formas de organização, resistência e produção cultural. Nesse sentido, Sales compreende o termo “periferia” como uma construção social vinculada às práticas e aos discursos de sujeitos que atuam em movimentos culturais e sociais, capaz de reunir diferentes territórios marginalizados em torno de processos comuns de pertencimento e de construção identitária, sem apagar suas particularidades. A cultura periférica, portanto, não produz uma identidade uniforme, mas uma identidade coletiva fundada na diferença e na diversidade de experiências. É justamente a partir dessa perspectiva que o título Traços da periferia adquire maior significado: os “traços” não remetem a uma essência fixa da periferia, mas às múltiplas marcas, vozes e experiências que atravessam esses espaços e que são representadas, recriadas e ressignificadas pelos autores em suas produções literárias.

A partir dessa concepção plural da periferia, o capítulo inicial dedica-se a reconstituir, com cuidado historiográfico, a trajetória da literatura produzida a partir desses espaços e, especialmente, do termo “literatura marginal”. Sales ressalta que as escritas literárias originadas em espaços marginalizados não constituem uma novidade nas letras brasileiras. Desde o século XIX, populações situadas às margens sociais já apareciam na produção literária nacional, mas, em geral, eram representadas pela voz de autores externos a essas realidades. A principal transformação observada na produção contemporânea está justamente no deslocamento desse lugar de enunciação: os sujeitos periféricos deixam de ser apenas objetos da representação para se tornarem autores de suas próprias narrativas, fazendo de suas vivências matéria literária. Nesse percurso, Carolina Maria de Jesus ocupa um lugar de destaque, tornando-se referência para escritores e escritoras que passaram a afirmar suas próprias vozes e experiências por meio da literatura.

Embora a produção de Carolina Maria de Jesus seja fundamental para compreender essa tradição, Sales situa a constituição de um movimento literário organizado a partir das periferias em um contexto mais recente, especialmente no final dos anos 1990. É nesse momento que a produção passa a adquirir um caráter mais claramente coletivo, permitindo falar não apenas de escritores provenientes das periferias, mas de um movimento de literatura constituído por sujeitos que compartilham determinadas experiências e estratégias de atuação. É nesse contexto que se insere a reapropriação do termo “literatura marginal”, sobretudo por Ferréz, nos anos 1990. A autora demonstra que esse processo de ressignificação não é ingênuo: nomear-se “marginal”, palavra historicamente carregada de estigma e frequentemente associada à criminalidade e à marginalidade social em sentido pejorativo, constitui, para esses escritores, um gesto de apropriação, resistência e ressignificação. Ao reivindicarem para si um termo que durante décadas foi utilizado para inferiorizá-los e excluí-los, esses autores subvertem sua carga negativa e transformam-no em um signo de pertencimento, identidade e orgulho. Aquilo que a sociedade historicamente lança à margem, associando-o à condição de desvio ou de ausência, passa a ser reivindicado como marca de uma experiência coletiva, de uma produção cultural potente e de uma trajetória de luta. Desse modo, assumir-se “marginal” deixa de representar uma condição imposta de exclusão para tornar-se um posicionamento político que desafia os estigmas sociais e afirma a legitimidade de sujeitos, histórias e produções tradicionalmente silenciados pelo campo literário.

É esse mesmo raciocínio que fundamenta a opção da autora pela expressão composta “literatura marginal-periférica”. Sales não abandona o termo “marginal”, justamente por reconhecer o peso histórico e político de sua reapropriação a partir dos anos 1990, mas acrescenta “periférica” para enfatizar a dimensão espacial e o pertencimento à cultura popular urbana. Nesse percurso, o livro também apresenta outras nomenclaturas em disputa, como “literatura periférica”, associada a Sérgio Vaz, e “literatura divergente”, utilizada por Nelson Maca. A multiplicidade de denominações, portanto, não aparece como uma fragilidade conceitual a ser corrigida, mas como expressão da vitalidade, da heterogeneidade e da complexidade do próprio movimento. Afinal, se as periferias são múltiplas, também são múltiplas as formas pelas quais seus sujeitos se reconhecem, se representam e reivindicam espaço no campo literário.

A consolidação desse movimento também evidencia a importância da luta por visibilidade que acompanha a literatura marginal-periférica. Apesar das recorrentes tentativas de silenciamento e da falta de apoio institucional às iniciativas culturais das periferias, esses autores desenvolveram formas próprias de organização e circulação de suas obras, ampliando sua presença para além dos territórios onde são produzidas. Revistas, coletâneas, documentários, histórias em quadrinhos e outras iniciativas passaram a integrar essa rede de divulgação, demonstrando que a literatura marginal-periférica não reivindica apenas o direito de existir, mas também o direito de ocupar espaços de reconhecimento e legitimação no campo literário e cultural.

A discussão sobre a circulação da literatura conduz, por sua vez, a uma questão igualmente importante: de que maneira a academia deve ler e categorizar esse tipo de produção literária? Esse é um dos eixos mais instigantes do livro. Sales dialoga criticamente com o conceito de “literatura menor”, de Deleuze e Guattari, e com a leitura que Paulo Roberto Tonani do Patrocínio faz desse conceito aplicado à literatura periférica, para alertar sobre um risco recorrente: a tentativa de estabelecer uma “linguagem própria da periferia” ou uma fronteira linguística rígida entre centro e margem pode, paradoxalmente, reproduzir a própria lógica de estigmatização que essas produções procuram questionar. As falas produzidas nas periferias são heterogêneas e plurais, construídas por sujeitos com repertórios culturais diversos; não existe, portanto, um dialeto periférico uniforme que possa ser isolado e etiquetado pela crítica.

Nesse sentido, uma das principais contribuições da discussão desenvolvida por Sales está em demonstrar que a literatura marginal-periférica não é relevante apenas — nem principalmente — por seus conteúdos temáticos, como violência, pobreza e racismo, mas também por evidenciar como o meio social e as experiências concretas dos sujeitos interferem na linguagem, na forma e na própria definição daquilo que pode ser reconhecido como literatura. Ao incorporarem gírias, oralidade, neologismos e construções sintáticas que rompem com a norma culta, esses autores não produzem uma versão “menor” ou “deficiente” da literatura canônica. Pelo contrário, constroem uma denúncia estética e política dos critérios de legitimação impostos pela “grande cultura nacional”, nas palavras de Ferréz citadas no livro, além de questionarem parâmetros tradicionais de análise literária, como autor, obra, estilo e texto. A autora recorre ainda à noção de “literatura pós-autônoma”, de Josefina Ludmer, para sustentar que essas obras demandam um regime de leitura distinto, capaz de questionar hierarquias de valor literário previamente estabelecidas.

Essa discussão sobre legitimação não se limita, contudo, ao campo estético. Sales relaciona a produção literária marginal-periférica a uma luta mais ampla pelo direito à literatura, conforme a formulação de Antonio Candido. Se a literatura pode ser compreendida como um direito humano e como um direito universal, a produção desses autores também deve ser entendida como parte de uma luta por direitos. Nesse sentido, a fruição da literatura e a possibilidade de escrever e publicar não são privilégios que deveriam estar restritos aos circuitos culturais hegemônicos. A produção marginal-periférica passa, então, a integrar uma luta mais ampla pela democratização do acesso à literatura, tanto no que diz respeito ao direito de consumi-la quanto ao direito de produzi-la e fazer circular diferentes perspectivas e experiências.

Essa necessidade de criar espaços próprios de circulação encontra uma dimensão prática na quarta e última seção do livro, dedicada às estratégias de agenciamento político-cultural desenvolvidas pelos autores para fazer suas produções circularem para além dos circuitos editoriais hegemônicos. Essa seção se mostra especialmente concreta e reveladora porque evidencia que, para Sales, o processo de publicação não pode ser compreendido como uma atividade exterior à produção literária. Ao contrário, publicar, para esses autores, constitui também um ato político. A própria trajetória da literatura marginal-periférica demonstra que, diante da dificuldade de acesso às editoras tradicionais, escritores e coletivos precisaram criar mecanismos próprios para publicar e distribuir suas obras. A fala de Ferréz recuperada por Sales sintetiza essa necessidade ao apontar que era preciso editar os próprios livros porque havia pouco interesse das editoras tradicionais em publicar essas histórias e experiências.

É nesse contexto que Allan Santos da Rosa funda, em 2005, o selo Edições Toró, responsável por publicações de gêneros variados e por uma atuação multifacetada. O projeto não se restringe à publicação de livros, envolvendo também diferentes formas de circulação e divulgação da produção periférica. Sales destaca, ainda, que a atuação desse tipo de iniciativa contribui para que a literatura ultrapasse os limites territoriais das periferias, colocando seus textos em circulação por meio de revistas, coletâneas e outros suportes. Embora as Edições Toró não estejam atualmente em atividade, sua produção permanece significativa para compreender os mecanismos de organização e circulação construídos pela literatura marginal-periférica. Dinha, inspirada pelas Edições Toró, cria, em 2013, junto a um coletivo de mulheres da Rede Poder e Revolução, o selo Me Parió Revolução. Seu diferencial está justamente em ser um projeto gerido por mulheres e dedicado exclusivamente à publicação de autoras, tendo publicado, entre outras escritoras, Carolina Maria de Jesus e Cidinha da Silva. Sacolinha, por sua vez, funda a Associação Cultural Literatura no Brasil e desenvolve projetos voltados à formação e à atuação coletiva. Em todos esses casos, Sales demonstra que os projetos editoriais e culturais não funcionam apenas como veículos de publicação, mas como verdadeiros espaços de ação político-cultural.

Essa dimensão coletiva é fundamental porque evidencia que a literatura marginal-periférica não se estrutura apenas em torno da trajetória individual de seus escritores. A produção e a circulação dos textos fazem parte de um projeto mais amplo de construção de coletividades, formação de leitores e escritores e disputa por espaço simbólico. Dessa maneira, a publicação deixa de representar um fim individual e passa a constituir um instrumento de uma luta coletiva. Os escritores não apenas produzem obras, mas também criam condições para que outros sujeitos possam produzir, publicar e fazer circular suas próprias histórias. A literatura, portanto, transforma-se em prática de agenciamento político-cultural, aspecto que se articula diretamente à ideia de literatura como direito humano discutida por Sales a partir de Antonio Candido.

A dimensão coletiva e política dessa literatura também se articula à discussão sobre gênero, especialmente à condição da escrita feminina dentro e, em alguns momentos, à margem do próprio movimento marginal-periférico, configurando uma espécie de “margem dentro da margem”. Essa questão aparece de duas maneiras centrais ao longo da análise. Primeiramente, na abordagem da obra de Dinha, cuja poesia-denúncia trata da violência de gênero, do genocídio da juventude negra e da experiência de escrever como mulher negra e periférica. A dimensão política dessa escrita é sintetizada pela própria autora na afirmação “escrevo para corromper as estatísticas”, utilizada como epígrafe no livro. Em segundo lugar, a discussão aparece na leitura que Sales realiza das personagens femininas presentes nos contos de Allan Santos da Rosa, como Ceci, Dona Esperança e Pérola, em Reza de mãe. Nessas personagens, são evidenciadas diferentes formas de opressão, a sobrecarga do trabalho doméstico e emocional e as violências que atravessam os corpos femininos periféricos. Mesmo sendo construídas por um narrador homem, essas personagens são analisadas por Sales a partir de uma perspectiva sensível, capaz de provocar o leitor e de evidenciar as complexidades das experiências femininas representadas na obra.

É, contudo, na análise do selo Me Parió Revolução que essa discussão adquire uma dimensão política ainda mais explícita. Um projeto editorial pensado, gerido e executado por mulheres e dedicado à publicação exclusiva de autoras é interpretado por Sales como uma estratégia de agenciamento capaz de responder a uma dupla marginalização: aquela relacionada ao gênero e aquela associada à classe e ao território. Com apoio em depoimentos e posfácios de autoras publicadas pelo selo, a pesquisadora evidencia como essas escritas funcionam como espaços de ressignificação identitária e resistência aos estereótipos depreciativos. Dessa maneira, a ocupação de espaços de fala aparece também como uma forma de reconstruir coletivamente aquilo que foi historicamente silenciado ou apagado. A experiência do Me Parió Revolução, assim como as demais iniciativas analisadas, reforça a compreensão de que escrever, publicar e fazer circular uma obra constituem ações inseparáveis de um processo mais amplo de disputa por visibilidade e reconhecimento.

Ao articular essas diferentes dimensões a diversidade formal, a pluralidade das periferias, a trajetória histórica da literatura marginal, a disputa em torno das nomenclaturas, os modos de leitura acadêmica, o direito à literatura, as estratégias de circulação e as questões de gênero, Traços da periferia apresenta uma compreensão da literatura marginal-periférica que ultrapassa uma abordagem meramente temática ou sociológica. Um dos principais méritos da obra está justamente em tratá-la como um projeto estético-político dotado de estratégias próprias de produção, circulação e legitimação e, sobretudo, como literatura, sujeita a uma análise formal e conceitual rigorosa. A articulação entre o aporte teórico com autores como Rancière, Deleuze e Guattari, Ludmer e Ravetti e o material empírico composto por entrevistas, manifestos, depoimentos e registros de projetos e editoras constitui um dos pontos fortes do estudo. Da mesma forma, destaca-se a disposição de Sales para problematizar, sem recorrer a simplificações, as tensões existentes no interior do próprio movimento, como as disputas em torno das nomenclaturas, o lugar ocupado pelas mulheres, a heterogeneidade das periferias e os limites da aplicação de determinados conceitos teóricos. Nesse sentido, Traços da periferia mostra-se uma leitura relevante para aqueles interessados na literatura brasileira contemporânea, nos estudos culturais, na sociolinguística e nas políticas de legitimação do campo literário. Mais do que apresentar uma produção que historicamente ocupou as margens, Sales convida o leitor a deslocar o próprio olhar e a questionar as categorias a partir das quais se define o que é centro, o que é margem e, sobretudo, o que pode ser reconhecido como literatura.

EDUNEB recebe propostas de livros para serem submetidos ao Edital da FAPESB até 20/08/26

A Eduneb está recebendo originais para Edital da Fapesb.

Professores pesquisadores da UNEB interessados em se inscrever no Edital Nº 018/2026 da FAPESB – Apoio à publicação científica, tecnológica ou da popularização da ciência – podem entrar em contato com a EDUNEB e enviar seus originais para o e-mail edunebsecretaria@uneb.braté o dia 20/08/2026, para que os trabalhos submetidos sejam avaliados por pareceristas e pelo Conselho Editorial da Editora. 

Acesse o Edital da FAPESB no link:

https://www.fapesb.ba.gov.br/edital-fapesb-no-0182026-apoio-a-publicacao-cientifica-tecnologica-ou-de-popularizacao-das-ciencias

APESAR DE O AMOR E OUTROS POEMAS

Autor(es):  Vilebaldo Santos de Jesus

PDF E-book

Sinopse

A Coleção Abre Caminhos integra um conjunto de ações estruturantes voltadas à promoção do livro, da leitura, da literatura e da memória no Estado da Bahia, em consonância com as diretrizes do Plano Estadual do Livro e da Leitura (PELL).

Chegará o tempo em que “o amor será uma ferida aberta”. Em tons visionários e ritmo dissonante, Vilebaldo de Jesus nos impulsiona a transitar por caminhos ainda não imaginados. O amor, nas páginas deste livro, está dessacraliza do, cru, inconformado com idealizações… e por isso mesmo causa-nos espanto.

Disponível no Link: https://eduneb.uneb.br/wp-content/uploads/2026/07/Apesar-de-o-Amor-e-Outros-Poemas-E-book.pdf

Detalhes do Produto

EditoraEduneb
Altura18
Largura 13
Página75
Edição1
Ano2026
IdiomaPortuguês
ISBN978-65-89492-37-5
CDDB869.1
BISACLIT004050
ThemaD
CategoriaLiteratura

Sobre o autor

Vilebaldo S. de Jesus é graduando em Letras (Língua Portuguesa e Literaturas) pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB)/Campus IV. É poeta, ourives, arte-educador e pesquisador negro nas áreas da oralidade e da cultura popular. Idealizou, em 2024, o projeto artístico–cultural Teatro Afro-Indígena Saudense (TAIS), no qual propõe uma abordagem artístico-intelectual decolonial às temáticas afro e indígenas no interior baiano para jovens da rede pública de ensino.


AS AVENTURAS DE DANDARA

Autor(es):  ALLANE MENDES DE OLIVEIRA

PDF E-book

Sinopse

A Coleção Abre Caminhos integra um conjunto de ações estruturantes voltadas à promoção do livro, da leitura, da literatura e da memória no Estado da Bahia, em consonância com as diretrizes do Plano Estadual do Livro e da Leitura (PELL).

Este livro é como “um rio de águas paradas”, tal qual “um espelho gigante”. Aqui Allane Mendes de Oliveira se inaugura em publicação literária da forma mais pro funda possível: unindo histórias ancestrais como quem orna fios de contas.

Disponível no Link: https://eduneb.uneb.br/wp-content/uploads/2026/07/As-Aventuras-de-Dandara-E-book.pdf

Detalhes do Produto

EditoraEduneb
Altura18
Largura 13
Página130
Edição1
Ano2026
IdiomaPortuguês
ISBN978-65-89492-31-3
CDDB869.3
BISACLIT004050
ThemaD
CategoriaLiteratura

Sobre o autor

Allane nasceu no sertão da Bahia e carrega no coração o amor pelas histórias que crescem no vento e se guar dam na memória. Graduanda em Letras, Língua Portuguesa e Literatura pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), dedica-se a ouvir e registrar narrativas que mantêm viva a cultura quilombola, indígena e sertaneja. Escreve para que as vozes do passado encontrem lugar no presente, e para que cada leitor sinta que também faz parte dessa história.


AS FACES DE FÊNIX

Autor(es):  Nicolly Braga Raimundo

PDF E-book

Sinopse

A Coleção Abre Caminhos integra um conjunto de ações estruturantes voltadas à promoção do livro, da leitura, da literatura e da memória no Estado da Bahia, em consonância com as diretrizes do Plano Estadual do Livro e da Leitura (PELL).

Este livro nos expõe ao delírio e ao desconsolo, à ternura e ao colo das águas. Aqui encontramos a poesia
“eternamente a navegar” pelas marés das transgressões. O amor resiste “na gaveta entre carretéis e entre linhas”. Não há trégua para os opressores. A matéria sensível é foco de re-existência.

Disponível no Link: https://eduneb.uneb.br/wp-content/uploads/2026/08/As-faces-de-Fenix-E-book.pdf

Detalhes do Produto

EditoraEduneb
Altura18
Largura 13
Página93
Edição1
Ano2026
IdiomaPortuguês
ISBN978-65-89492-35-1
CDDB869.1
BISACLIT004050
ThemaD
CategoriaLiteratura

Sobre o autor

Nicolly Braga Raimundo (Nicolly Fênix) é graduanda em letras, mulher trans, magista, oraculista, ativista de movimentos sociais das pessoas em situação de rua e pessoas trans, poetisa, escritora, coordenadora do Fórum TT da Bahia, fundadora do Movimento Trans Rua e liderança da Associação Donnas da Rua.


CARTAS DE UM CABOCLO APAIXONADO E OUTRAS PROSAS POÉTICAS

Autor(es):  Jota

PDF E-book

Sinopse

A Coleção Abre Caminhos integra um conjunto de ações estruturantes voltadas à promoção do livro, da leitura, da literatura e da memória no Estado da Bahia, em consonância com as diretrizes do Plano Estadual do Livro e da Leitura (PELL).

Nestas cartas e outras prosas poéticas encontramos o amor num ciclo de desencontros que se refaz. A prosa de Jota traz a homoafetividade para o centro da cena – com todas as interdições sociais que a ameaçam. Aqui os encontros são rompimentos, despedidas, indecisões… os fios de um novelo insistente deixa cicatrizes num narrador que reluta para acreditar no amor.

Disponível no Link: https://eduneb.uneb.br/wp-content/uploads/2026/07/E-book_Cartas-de-um-Caboclo.pdf

Detalhes do Produto

EditoraEduneb
Altura18
Largura 13
Página89
Edição1
Ano2026
IdiomaPortuguês
ISBN978-65-89492-30-6
CDDB869.3
BISACLIT004050
ThemaD
CategoriaLiteratura

Sobre o autor

JOTA, nome artístico de Jhones Cardoso da Silva, é um talentoso indígena da etnia Kiriri de Saí. Atualmente, ele está cursando Licenciatura em Teatro na Universidade do Estado da Bahia (Uneb). JOTA também é vice-presidente da ONG Casa do Aprendiz. Ele também faz parte do grupo de teatro Urupês, Além disso, JOTA é um membro ativo do Conselho de Igualdade Racial, do Conselho de Cultura e da Câmara Temática de Povos de terreiro.


Chakras (Des)alinhados

Autor(es):  Bárbara Taiane

PDF E-book

Sinopse

A Coleção Abre Caminhos integra um conjunto de ações estruturantes voltadas à promoção do livro, da leitura, da literatura e da memória no Estado da Bahia, em consonância com as diretrizes do Plano Estadual do Livro e da Leitura (PELL).

Bárbara Taiane escreve com a certeza de que “não há o que temer além da própria vida”. Nestes “Chakras (des) alinhados” acessamos uma poética voraz e audaz. A vida não dá trégua e as vozes que gritam nestas páginas há muito não estão no mundo para fazer concessões. Aqui o verbo rasga a página porque tem urgência em ser pronunciado.

Disponível no Link: https://eduneb.uneb.br/wp-content/uploads/2026/08/E-book_Chakras.pdf

Detalhes do Produto

EditoraEduneb
Altura18
Largura 13
Página78
Edição1
Ano2026
IdiomaPortuguês
ISBN978-65-89492-34-4
CDDB869.1
BISACLIT004050
ThemaD
CategoriaLiteratura

Sobre o autor

Bárbara Taiane, poeta e romancista, pesquisadora do modernismo negro. Graduanda em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) – Campus Natural de Aramari, Bahia.