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Projeto Resenhas EDUNEB: Machado e a lâmina discursiva da ironia

ROSSONI, IGOR. Machado e a lâmina discursiva da ironia. Salvador: EDUNEB, 2025, 326 p.

Resenha de GISELE DOS SANTOS ALVES

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Publicado em 2025 pela Editora da Universidade do Estado da Bahia, Machado e a Lâmina Discursiva da Ironia é um estudo bem aprofundado sobre as produções de Machado de Assis. Escrito pelo professor Igor Rossoni, esse estudo tem como objetivo contrastar o sentido de ironia nos mais complexos textos Machadianos. O referido autor, além de escritor é arquiteto, ensaísta, professor do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia, membro da Academia de Letras de Santo Amaro/BA e tem 17 livros publicados com ênfase em literatura e estudos literários.

Desde suas primeiras páginas, o autor nos informa que seu objetivo é compreender a ironia das obras de Machado de Assis como elemento constitutivo de toda a sua manifestação literária. Nesta obra, a ironia não é entendida como uma figura de linguagem onde se expressa o oposto do que realmente se é pensado ou dito; a ironia é entendida como uma estratégia discursiva utilizada com intuito de guiar o leitor, criar dúvidas e provocar distintas interpretações. Essa estratégia discursiva pode ser percebida de maneira bastante clara em Dom Casmurro, uma das obras mais conhecidas de Machado de Assis e um dos maiores exemplos da capacidade machadiana de criar ambiguidade por meio do discurso.

A obra é , separada em três partes e conduz o leitor a entender todo o processo de escritura do autor; desde os fundamentos da sua análise até a sua aplicação pratica nos textos de Machado de Assis. Obras como A Cartomante, Noite de Almirante e Memórias Póstumas de Brás Cubas são esmiuçadas de maneira que o autor consegue revelar sentidos que passam despercebidos em uma primeira leitura;  além disso, induz o leitor a questionar o que se é visto e lido. Rossoni, em determinado momento, diz que não se pode confundir autor real com narrador e isso acentua o entendimento do discurso machadiano e explica porque a leitura de Machado permanece tão atual.

A leitura de Machado e a Lâmina Discursiva da Ironia revela-se, difícil; especialmente, pela complexidade das análises apresentadas pelo autor. Em determinados momentos, é necessário retomar alguns pontos para que se consiga compreender completamente o que o texto deseja apresentar; entretanto, essa complexidade não diminui a relevância da obra; longe disso demonstra o rigor do estudo e proporciona ao leitor uma compreensão mais profunda das diferentes formas de interpretação da ironia. Essa perspectiva é importante porque demonstra a preocupação de Rossoni em construir uma leitura que não fique limitada a uma única concepção, analisando as obras e trazendo interpretações não convencionais que desafiam a tendencia de enxergar a ironia apenas como recurso de linguagem, mas buscando compreender como ela se produz dentro de cada texto e demonstrando que pode ser feita a releitura de uma obra várias vezes e a cada uma existir caminhos interpretativos diferentes.

Projeto Resenhas EDUNEB: UM CLUBE DE LEITURA DA GALÁXIA

ALBUQUERQUE, Luciana Campos de. Um clube de leitura da galáxia. – Salvador, Bahia: EdUNEB, 2025.

Resenha de Cleide Bruno dos Santos – Especialista em Educação Digital pela Unidade de Educação a Distância da Universidade do Estado da Bahia (Unead/UNEB).  Graduada em Letras pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB).

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Em “Um Clube de Leitura da Galáxia” a autora Luciana Campos de Albuquerque, professora da Rede Estadual de Ensino da Bahia, lotada desde 2014 no Colégio Estadual Juiz Jorge Faria Góes, na cidade de Feira de Santana (Ba), convida-nos a conhecer a experiência do Clube de Leitura da referida unidade escolar. Fruto de sua exitosa pesquisa de Mestrado em Estudo de Linguagens (PPGEL) pela Universidade do Estado da Bahia (Ba), a escrita destaca sobretudo a bagagem cultural dos membros e a linguagem como expressão emancipatória e autônoma na construção leitora dos estudantes.

A organização do livro, do título à divisão analítica de capítulos e seções preserva a alcunha dada ao colégio, sendo a melhor escola pública da galáxia. A autora nos leva para uma viagem do passado ao presente para que conheçamos a sua construção leitora e chegada ao Colégio Juiz Jorge, passeando pelo período conturbado em que a gestão e a comunidade escolar sofreram com a ameaça de extinção. Relata ainda, esforços que emergiram para salvar a realidade e para que o futuro acontecesse e o clube vingasse. Viaja pela teoria da estética e recepção literária, literatura oral e escrita, produção literária, modos e estratégias de leitura, indo na contramão do que há muito tempo era uma afirmação preocupante: os jovens não leem. Ela prova que eles leem e impactam positivamente no meio em que estão inseridos, ao passo que evidencia a escola como um espaço promissor para a leitura.

A autora introduz a obra a partir de “O Big Bang no universo da leitura”, sendo este o ponto de partida, no qual ela situa quem é dentro de suas escolhas, bem como se deu seu contato com o mundo literário e profissional. Sendo destacado sobre este último que, mesmo sendo membro da escola e do clube, se denomina leitora de leitores, para que possa distanciar-se e lidar com todas as movimentações que esse projeto alcança durante a experiência da pesquisa. Defende que os jovens leem, e que suas leituras desses jovens impactam nas vivências dentro e fora do ambiente escolar. Como leitora de Antonio Candido, acredita que a literatura nos humaniza, ou seja, nos tira do automático, nos devolve o ar de seres vivos, pensantes, imagéticos, carregados de subjetividades, o que somos para além do que conseguimos fazer no dia a dia.

O capítulo um é apresentado pela autora como “O magnetismo da literatura no cosmo do leitor”, pelo qual, os livros, o universo do leitor é visto como esse espaço de atração. Albuquerque embasada em suas leituras e no contexto histórico e pedagógico do Colégio que atua começa a traçar sua rota literária: Que colégio é esse e que clube de leitura são esses? Essas perguntas ficam implícitas no desenrolar do capítulo, no qual a escritora versa, situa e consolida contexto educacional e ação desempenhada. Na seção “Viagem intergalática: descobrindo nossa identidade” conta sobre o Colégio Estadual Juiz Jorge Faria Góes onde nessa história encontrá-la. Um ponto delicado é sobre a possibilidade de fechamento da escola por conta da evasão e baixo desempenho dos estudantes, muito associado à situação crítica do bairro onde o colégio é endereçado. Gente a essa problemática, a atitude da gestão e comunidade foi promover ações pedagógicas que dessem respostas positivas a fim de reverter o fechamento do colégio.

Em “Oásis em órbita pública” a autora traz a aplicação das ações pensadas, disserta sobre as mudanças de postura que a gestão do colégio escolhe assumir; explica o que mudou, como impacta. É importante essa reflexão, cada página lida reflete a profissional comprometida com a vivência da escola que ela acredita ser possível. O capítulo dois “A galáxia da sociedade literária desigual” mergulha na experiência do clube de leitura, apresentando a Tertúlia Literária Dialógica como utilizada para organizar as mediações nas reuniões do clube, mas foram feitas interferências na técnica.  A técnica funciona da seguinte forma: o texto é partilhado por todos, a leitura é coletiva, e o mediador (não obrigatoriamente um professor) faz a condução das falas, mas não impõe, apenas organiza.

O clube foi criado em 2014, primeiro texto lido foi um conto de Machado de Assis, intitulado “A missa do galo”. O nome do clube inicialmente era “Clube Desigual”, em 2018 por conta do filme “A sociedade literária e a torta de casca de batata” renomearam o clube para o nome atual “Clube de Leitura Sociedade Literária Desigual”. Já em Pontes estelares: conectando leitores, a autora descreve o clube como “reunião de pessoas dispostas a ler e tecer impressões sobre suas leituras […] cumprindo um dos objetivos que era formar leitores para além das formalidades escolares” (p.63).

Para a análise desta pesquisa foi filtrado o seguinte perfil: o clube tem uma rotatividade de pessoas, mas para esta pesquisa ela optou pelos que mais frequentavam, escolhendo 10 estudantes do 3º ano do Ensino Médio, em sua maioria mulheres, entre 15 e 18 anos. essa coleta de dados foi realizada em 2019. A autora é apenas leitora de leitores, não participou compartilhando suas impressões, apenas observou a mediação e o desenrolar das falas a fim de responder as perguntas: Quem é esse leitor do clube de leitura? A cada leitura partilhada, o leitor se molda, torna-se narrador de uma vivência, mas também vai se integrando a vivência do outro (personagem, colega de clube, vizinho etc.) e isso vai compondo a escrita da autora, com as respostas dadas na movimentação falada e/ou escrita dos membros-leitores do Clube de Leitura.

Vale ressaltar como o clube de leitura atuou, fazendo parte da história do Colégio Estadual Juiz Jorge Faria Goés, enquanto “unidade coletiva de formação leitora”. E, em consequência disto, esteve presente em congressos e eventos da UEFS; fez parte de um estudo de doutoramento; foi objeto de pesquisa de Mestrado; impulsionou membros a ingressarem nas universidades; participou 3x da Feira Literária de Feira de Santana (Flifs).

Em “Astroleitores no clube de leitura” Albuquerque já nos traz os membros-leitores e como ocorre o entrosamento com o texto e com a rotina do clube. Para análise, ela opta por escolher um texto contemporâneo e outro clássico, para a imersão de ambos os lados. No desenrolar das suas percepções, a autora evidencia que gosto e prática de leitura são socialmente construídos e questiona a possiblidade de democratizar a leitura entre jovens por meio do clube de leitura. Na sua investigação de leitora de leitores, nota-se como os estudantes-membros do clube de leitura identificam o texto literário, assegurando a liberdade leitora e a autonomia de cada um.

As obras utilizadas para análise da interação dos estudantes-membros foram “Meu coração e outros buracos negros”, de Jasmine Varga e “A divina comédia” de Dante Alighieri. Os leitores não têm medo de concordarem ou discordarem, opinam, constroem suas redes de entendimento e inferem sobre as obras com sua bagagem literária; ao mesmo modo que optam, percebem o que é um cânone sem que tenha sido dito sobre.

Em “O diálogo interestelar” a autora apresenta o modo arcaico de leitura literária na escola o qual não atende mais ao tipo de leitor da escola atual, que corresponde ao leitor contemporâneo. Este critica, mesmo que goste do que ler, sabe inferir sobre a obra e ainda relacioná-la, não só situando na questão histórica, mas indo além. Foi solicitado que os membros do clube escrevessem cartas para os autores, ainda que não estivessem vivos, mas que pudessem de alguma maneira registrar o que a obra lhes causou, como uma devolutiva performática em resposta a fruição de seus. Torna-se um produto cultural, mas acima de tudo, é um momento importante para o leitor, o autor e a obra.

Em Leitores “Exploradores analíticos” a autora encontra uma recepção reflexiva da obra, intertextualizadas com os dias atuais: Helena escreveu para Aluísio de Azevedo comentando a obra “O cortiço”; Maria escreveu para Margareth Atwood sobre O conto da aia”; Savannah leu “Dom Casmurro” e escreveu para Machado de Assis. No segundo bloco a autora traz as críticas, o leitor com sua reação frente à desfechos, personagens e aos comportamentos, ela intitula como Leitores “Cometas zombeteiros”: Lea leu “ hora da Estrela” e escreveu sua carta para Clarice Lispector; Valdirene escreveu para José de Alencar por ter lido “Senhora”.

Em Leitores “Estrelas entusiastas” ocorre uma associação do enredo a suas vivências, construídas pela admiração seja pelo autor(a) ou pelas personagens: Fernando leu “Olhos d’água” e escreveu para Conceição Evaristo; Guga leu “Quarto de despejo” e sua carta foi para Carolina Maria de Jesus; Apolo escreveu para Camilo Castelo Branco autor de “Amor de perdição”. Já em Leitores “Satélites digitais” – é o último, os membros do clube criaram links com as mídias sociais: Alan Nolan leu “O morro dos ventos uivantes” e escreveu para Emily Bronte e Mel leu “Olhos d´água”, escreveu para Conceição Evaristo.

Os capítulos de fechamento, respectivamente, “Comunicações cósmicas aos leitores!”  e “Eis a jornada sideral literária: considerações finais” coaduna com o percurso feito pela autora para apresentar a iniciativa, o contexto e seus resultados. O Clube de leitura Sociedade Literária Desigual aplica a linguagem como expressão emancipatória e autônoma, soma às estratégias construtivas do universo leitor e produz uma estética de recepção usual, eficaz e que impacta a comunidade escolar como um todo, sendo as cartas são reflexos dessas experiências leitoras vividas.

Em suas páginas, a autora se apoia em que o clube de leitura é um espaço de construção não só formativa, mas que impulsiona a liberdade de expressão, a produção da criticidade, reconhecimento identitário e que pode impactar positivamente nas vidas ali envolvidas. É notável sua contribuição para a discussão de estética da recepção literárias a partir dessa outra forma de se fazer acontecer a formação leitora dos estudantes da educação básica. O livro atualiza as discussões no campo da pesquisa em Linguagens, podendo ser também inspiração para outras escolas que estejam mudando as abordagens, para compor a proposta de currículo e Projeto Político Pedagógico orientada pela BNCC. Assim, de maneira contagiante e inspiradora a autora diversifica a forma de falar sobre estratégias de leitura e coaduna com a ampliação da discussão em mais espaços educacionais.

Projeto Resenhas EDUNEB: Corporeidades, feminilidades, homossexualidades e transexualidades

RIOS, Pedro Paulo Souza (org.). Corporeidades, feminilidades, homossexualidades e transexualidades: constituição de identidades de gênero. Salvador: EDUNEB, 2023.

Resenha de Anajuly Eça Gomes Lopes.

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O livro “Corporeidades, feminilidades, homossexualidades e transexualidades: constituição de identidades de gênero”, organizado por Pedro Paulo Souza Rios e publicado pela Editora EDUNEB em 2023, apresenta um conjunto de textos que abordam diferentes narrativas sobre corpos dissidentes na sociedade normativa, tendo como uma de suas principais perspectivas a escrita de si.

Escrito por Megg Rayara Gomes de Oliveira, o prefácio apresenta o contexto sociopolítico e as motivações para a produção da obra. O período de 2018 foi marcado pela intensificação de discursos e ameaças direcionados a minorias, como a população negra e a comunidade LGBTQIAPN+, além de ataques à educação e à produção científica. Nesse contexto, a produção acadêmica é apresentada como um ato de resistência na luta contra o fascismo. A obra reúne textos autobiográficos, críticos e analíticos que questionam as instituições, a sociedade e os binarismos, a partir de reuniões realizadas pelo Grupo de Pesquisa e Estudos em Gênero e Sexualidades no Sertão (GENESIS-Sertão).

Ao longo da obra, o corpo é apresentado como “territórios de disputa” (p. 15), uma vez que a presença de corpos dissidentes provoca desconfortos em ambientes regidos pela perspectiva normativa, sendo alvos de silenciamento e cerceamento. Nesse sentido, os textos discutem o papel das subjetividades no processo formativo e pedagógico do ser, que, desde o nascimento, são constantemente questionadas pela noção do padrão de corpo que é construído socialmente (Mauss, 1974, apud Cardoso, 1994).

Instituições como a escola e a família aparecem como espaços que produzem expectativas de gênero, raça e comportamento, produzindo estigmas e formas de disciplinarização dos corpos. A Educação Física é um exemplo apresentado nos textos, que, em vez de ser um componente para incentivar o movimento e promover a conscientização da diversidade de corpos, ainda reproduz estereótipos que aprisionam o ser.

Em contrapartida, a educação também é colocada como ferramenta de transgressão, na qual corpos marginalizados têm a possibilidade de escrever a sua própria história e denunciar violências. A universidade pública aparece, dessa maneira, como espaço de transformação do sujeito, possibilitando o contato com diferentes experiências e a reflexão sobre a própria trajetória. Essa perspectiva pode ser observada na narrativa de Laíse de Souza Nascimento, no texto “Entrelaçando histórias de vida pessoal e acadêmica: (reconstrução do ser mulher da roça)”, em que a formação escolar e acadêmica se relaciona à construção da autonomia e empoderamento.

Dessa forma, a coletânea de textos elucida questões sobre o corpo enquanto lugar transitório e mutável, passível de transformações, mas que, a todo momento é convocado ou coagido a se adequar às normas sociais. A obra mostra também o papel da educação enquanto agente que pode contribuir, positivamente, para a formação dos sujeitos e para sua transformação, mas que, ao mesmo tempo, possui práticas pedagógicas que, desde a infância, incentivam os indivíduos a seguir determinados comportamentos e a se enquadrar em papéis de gênero.

Projeto Resenhas EDUNEB: ENTRE OS MUROS DA EXCLUSÃO

ENTRE OS MUROS DA EXCLUSÃO TRAJETÓRIAS DE “ALIENADOS” NA BAHIA (1903-1916) SEPÚLVEDA, P. M. Entre os muros da exclusão [online]. Salvador: EDUNEB, 2023

Resenha de Maria Vitória Coutinho e Silva Figueiredo de Almeida.

Graduada em Licenciatura em Ciências Sociais e graduanda em Bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB).

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1. APRESENTAÇÃO DA OBRA

A presente resenha tem como objetivo realizar uma análise descritiva e crítica da obra Entre os muros da exclusão: trajetórias de “alienados” na Bahia (1903-1916) (2023), publicada pela Editora da Universidade do Estado da Bahia (EDUNEB). Escrita por Patrick Moraes Sepúlveda, mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da UNEB, a obra apresenta os resultados de sua pesquisa de mestrado, desenvolvida a partir de diversas fontes documentais, entre elas periódicos de circulação popular e científica, a Gazeta Médica da Bahia e diferentes jornais da época. Estruturado em dois capítulos, o livro analisa as relações entre saúde mental, história, loucura e psiquiatria no contexto baiano. O primeiro capítulo aborda o cenário da psiquiatria e sua relação com a instituição asilar, enquanto o segundo analisa as trajetórias dos chamados “alienados” no período delimitado pela obra, discutindo também as concepções de loucura em circulação nos séculos XIX e XX.

2. RESENHA DESCRITIVA E CRÍTICA DA OBRA

Como ponto de partida para a pesquisa, o historiador formula questões centrais que orientam sua investigação: “O que era considerado loucura na cidade de Salvador? Quais os critérios utilizados pelos psiquiatras para explicar as doenças mentais? Como os alienados reagiram à disciplina institucional?” (p. 7). Essas perguntas são fundamentais para a constelação de ideias que norteia a obra, servindo de base para as análises e reflexões desenvolvidas ao longo do livro. O autor parte da concepção de que os ditos alienados eram caracterizados, primordialmente, por não se adequarem aos padrões comportamentais idealizados na época e, por isso, eram considerados socialmente indesejáveis. Essa perspectiva, defendida pela classe dominante, sustentava que a circulação desses indivíduos pela cidade representava riscos à ordem social, legitimando, assim, a necessidade de uma instituição destinada à sua reclusão.

Para este trabalho, Sepúlveda recorre aos estudos sobre o Asilo São João de Deus, a primeira instituição manicomial da Bahia, fundada em 1874. A partir dessa análise, o autor examina casos de reclusos, como os de Aprígio Bacellar Aranha, Joaquim Pereira Navarro e Pedro da Silva Rego, pacientes da instituição entre 1912 e 1914.

Ao evocar casos de pacientes, o autor recorre a uma fundamentação teórico-metodológica orientada pela História Social Inglesa, à luz das contribuições de E. P. Thompson, partindo da compreensão de que as ações dos sujeitos são complexas e constitutivas das dinâmicas sociais. Nessa perspectiva, evidencia-se que, mesmo em contextos de exclusão, os sujeitos participam e interferem na construção dessas dinâmicas. Além da História Social Inglesa, autores como Foucault e Chalhoub contribuem para o debate sobre a loucura. Foucault (2002), relaciona a loucura à exclusão social, enquanto Chalhoub (2012) evidencia a influência da produtividade econômica na perspectiva médica, que categorizou como alienados aqueles considerados sem potencial produtivo.

Na Europa, nos séculos XIX e XX, constituiu-se a concepção da loucura enquanto algo a ser estudado, marcada pela associação às emoções e à degenerescência biológica, com médicos como Philippe Pinel e Emil Kraepelin. No Brasil, a literatura médica do Primeiro Período Republicano alinhava-se às ideias do racismo científico e do higienismo, apontando a população negra e pobre como predisposta à loucura, à violência e à inferioridade racial. Desse modo, o autor evidencia como as desigualdades sociais influenciaram a compreensão da loucura e contribuíram para o surgimento de estratégias de reclusão voltadas aos indivíduos considerados prejudiciais à ordem social.

A obra pode ser considerada uma importante referência para os estudos em História da Ciência e sua intersecção com as políticas de saúde, ao evidenciar que as condições de saúde e as formas de tratamento não são determinadas apenas por fatores biológicos, mas também pela posição social dos sujeitos e pelas relações de poder. Ao abordar casos como os de Joaquim Pereira Navarro e Pedro da Silva Rego, o historiador evita julgamentos morais maniqueístas e evidencia a complexidade dos comportamentos em seus contextos sociais. Nesse sentido, o Asilo São João de Deus não deve ser compreendido, apenas, como instituição hospitalar, mas como um espaço marcado pela contradição e atravessado por uma mentalidade de controle social, na qual ciência, saúde e poder se articulavam na definição e na reclusão dos chamados “alienados”.

Projeto Resenhas EDUNEB: Traços da Periferia

SALES, Karina Lima. Traços da periferia: política e performance em produções literárias marginais-periféricas contemporâneas. Salvador: EDUNEB, 2022, 234 p.

Resenha de Catharine Simões de Freitas Santos.

Discente do curso de Licenciatura em Letras – Língua Espanhola e Literaturas, 8º semestre, Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Departamento de Ciências Humanas – Campus I, Salvador/BA.

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Traços da periferia: política e performance em produções literárias marginais-periféricas contemporâneas, de Karina Lima Sales, foi publicado pela Editora da Universidade do Estado da Bahia (EDUNEB), em Salvador, no ano de 2022. Com 234 páginas, a obra corresponde à versão da tese de doutorado da autora, defendida na UFMG sob orientação de Graciela Ravetti. O livro parte de uma pergunta ambiciosa: em que medida as noções de política e performance regem a escrita, a circulação e o consumo da literatura marginal-periférica brasileira contemporânea, e que estratégias de agenciamento político-cultural os próprios escritores constroem para sustentar esse movimento? Para respondê-la, a autora escolhe três nomes — Allan Santos da Rosa, Dinha e Sacolinha — e organiza o livro em quatro grandes blocos: a genealogia e a nomeação do movimento; seus desdobramentos estéticos e políticos; a análise das obras propriamente ditas sob a chave da performance; e, por fim, o estudo dos selos e projetos criados por cada autor. É um percurso que caminha do conceito para a prática, e da prática para a reflexão teórica — um movimento que espelha, de certa forma, o próprio objeto de estudo: uma literatura que nasce da vivência e se transforma em ação coletiva organizada.

Um dos aspectos mais interessantes da construção do livro é a diversidade genérica das obras selecionadas para análise. De Allan Santos da Rosa, Sales examina o texto teatral Da Cabula e o livro de contos Reza de mãe; de Dinha, os poemas De passagem mas não a passeio e Onde escondemos o ouro; e, de Sacolinha, Contos de 85 letras e Um disparo e Brechó, meia-noite e fantasia. A autora é explícita quanto ao motivo dessa escolha: como o estudo não pretende estabelecer uma análise cotejada das obras, observando, por exemplo, recursos formais e estilísticos entre os autores, torna-se possível “trilhar um caminho de liberdade entre texto para teatro, poemas e contos, sem afetar o estudo”, concentrando-se nos estilos, nas temáticas e nos elementos que permitem configurar cada publicação como escrita performática. Essa liberdade metodológica funciona, no desenvolvimento da obra, como uma espécie de espelho da própria liberdade temática e formal que atravessa a literatura marginal-periférica. Essa relação permite também uma leitura metafórica da própria estrutura do estudo.

A liberdade com que Sales transita entre diferentes gêneros literários parece espelhar a liberdade reivindicada pelos autores marginal-periféricos em suas obras: a liberdade de existir, de falar por si mesmos e de representar suas experiências sem se submeter às classificações e expectativas impostas por um olhar externo e frequentemente restritivo sobre a periferia. Assim como os escritores recusam limitar suas identidades, suas formas de expressão e suas vivências aos estereótipos historicamente atribuídos aos sujeitos periféricos, a pesquisadora recusa limitar sua análise a um único gênero. A pluralidade formal, nesse sentido, torna-se também uma metáfora da pluralidade das vidas que essas obras procuram afirmar. Assim como os autores estudados não se restringem a um único gênero para expressar suas urgências, transitando pelo teatro, conto e poesia, entre outras formas, a pesquisadora também não estabelece um recorte genérico rígido para analisá-los. Desse modo, a pluralidade formal das obras dialoga com a multiplicidade de vozes, experiências e realidades presentes nas periferias, reforçando uma compreensão central apresentada por Sales: a periferia não constitui um espaço homogêneo e, consequentemente, não produz uma literatura homogênea. Ao contrário, trata-se de um espaço constituído por diferentes sujeitos e experiências, que não permitem apontar para uma identidade única.

Essa pluralidade formal das obras encontra fundamento na própria concepção de periferia desenvolvida por Sales. Para a autora, a periferia não pode ser compreendida como um espaço homogêneo, mas como um conjunto de territórios e experiências marcados por diferenças sociais, culturais e históricas. Apesar de, frequentemente, ser reduzida pelo imaginário social, a um lugar associado à criminalidade e à exclusão, a periferia abriga múltiplas formas de organização, resistência e produção cultural. Nesse sentido, Sales compreende o termo “periferia” como uma construção social vinculada às práticas e aos discursos de sujeitos que atuam em movimentos culturais e sociais, capaz de reunir diferentes territórios marginalizados em torno de processos comuns de pertencimento e de construção identitária, sem apagar suas particularidades. A cultura periférica, portanto, não produz uma identidade uniforme, mas uma identidade coletiva fundada na diferença e na diversidade de experiências. É justamente a partir dessa perspectiva que o título Traços da periferia adquire maior significado: os “traços” não remetem a uma essência fixa da periferia, mas às múltiplas marcas, vozes e experiências que atravessam esses espaços e que são representadas, recriadas e ressignificadas pelos autores em suas produções literárias.

A partir dessa concepção plural da periferia, o capítulo inicial dedica-se a reconstituir, com cuidado historiográfico, a trajetória da literatura produzida a partir desses espaços e, especialmente, do termo “literatura marginal”. Sales ressalta que as escritas literárias originadas em espaços marginalizados não constituem uma novidade nas letras brasileiras. Desde o século XIX, populações situadas às margens sociais já apareciam na produção literária nacional, mas, em geral, eram representadas pela voz de autores externos a essas realidades. A principal transformação observada na produção contemporânea está justamente no deslocamento desse lugar de enunciação: os sujeitos periféricos deixam de ser apenas objetos da representação para se tornarem autores de suas próprias narrativas, fazendo de suas vivências matéria literária. Nesse percurso, Carolina Maria de Jesus ocupa um lugar de destaque, tornando-se referência para escritores e escritoras que passaram a afirmar suas próprias vozes e experiências por meio da literatura.

Embora a produção de Carolina Maria de Jesus seja fundamental para compreender essa tradição, Sales situa a constituição de um movimento literário organizado a partir das periferias em um contexto mais recente, especialmente no final dos anos 1990. É nesse momento que a produção passa a adquirir um caráter mais claramente coletivo, permitindo falar não apenas de escritores provenientes das periferias, mas de um movimento de literatura constituído por sujeitos que compartilham determinadas experiências e estratégias de atuação. É nesse contexto que se insere a reapropriação do termo “literatura marginal”, sobretudo por Ferréz, nos anos 1990. A autora demonstra que esse processo de ressignificação não é ingênuo: nomear-se “marginal”, palavra historicamente carregada de estigma e frequentemente associada à criminalidade e à marginalidade social em sentido pejorativo, constitui, para esses escritores, um gesto de apropriação, resistência e ressignificação. Ao reivindicarem para si um termo que durante décadas foi utilizado para inferiorizá-los e excluí-los, esses autores subvertem sua carga negativa e transformam-no em um signo de pertencimento, identidade e orgulho. Aquilo que a sociedade historicamente lança à margem, associando-o à condição de desvio ou de ausência, passa a ser reivindicado como marca de uma experiência coletiva, de uma produção cultural potente e de uma trajetória de luta. Desse modo, assumir-se “marginal” deixa de representar uma condição imposta de exclusão para tornar-se um posicionamento político que desafia os estigmas sociais e afirma a legitimidade de sujeitos, histórias e produções tradicionalmente silenciados pelo campo literário.

É esse mesmo raciocínio que fundamenta a opção da autora pela expressão composta “literatura marginal-periférica”. Sales não abandona o termo “marginal”, justamente por reconhecer o peso histórico e político de sua reapropriação a partir dos anos 1990, mas acrescenta “periférica” para enfatizar a dimensão espacial e o pertencimento à cultura popular urbana. Nesse percurso, o livro também apresenta outras nomenclaturas em disputa, como “literatura periférica”, associada a Sérgio Vaz, e “literatura divergente”, utilizada por Nelson Maca. A multiplicidade de denominações, portanto, não aparece como uma fragilidade conceitual a ser corrigida, mas como expressão da vitalidade, da heterogeneidade e da complexidade do próprio movimento. Afinal, se as periferias são múltiplas, também são múltiplas as formas pelas quais seus sujeitos se reconhecem, se representam e reivindicam espaço no campo literário.

A consolidação desse movimento também evidencia a importância da luta por visibilidade que acompanha a literatura marginal-periférica. Apesar das recorrentes tentativas de silenciamento e da falta de apoio institucional às iniciativas culturais das periferias, esses autores desenvolveram formas próprias de organização e circulação de suas obras, ampliando sua presença para além dos territórios onde são produzidas. Revistas, coletâneas, documentários, histórias em quadrinhos e outras iniciativas passaram a integrar essa rede de divulgação, demonstrando que a literatura marginal-periférica não reivindica apenas o direito de existir, mas também o direito de ocupar espaços de reconhecimento e legitimação no campo literário e cultural.

A discussão sobre a circulação da literatura conduz, por sua vez, a uma questão igualmente importante: de que maneira a academia deve ler e categorizar esse tipo de produção literária? Esse é um dos eixos mais instigantes do livro. Sales dialoga criticamente com o conceito de “literatura menor”, de Deleuze e Guattari, e com a leitura que Paulo Roberto Tonani do Patrocínio faz desse conceito aplicado à literatura periférica, para alertar sobre um risco recorrente: a tentativa de estabelecer uma “linguagem própria da periferia” ou uma fronteira linguística rígida entre centro e margem pode, paradoxalmente, reproduzir a própria lógica de estigmatização que essas produções procuram questionar. As falas produzidas nas periferias são heterogêneas e plurais, construídas por sujeitos com repertórios culturais diversos; não existe, portanto, um dialeto periférico uniforme que possa ser isolado e etiquetado pela crítica.

Nesse sentido, uma das principais contribuições da discussão desenvolvida por Sales está em demonstrar que a literatura marginal-periférica não é relevante apenas — nem principalmente — por seus conteúdos temáticos, como violência, pobreza e racismo, mas também por evidenciar como o meio social e as experiências concretas dos sujeitos interferem na linguagem, na forma e na própria definição daquilo que pode ser reconhecido como literatura. Ao incorporarem gírias, oralidade, neologismos e construções sintáticas que rompem com a norma culta, esses autores não produzem uma versão “menor” ou “deficiente” da literatura canônica. Pelo contrário, constroem uma denúncia estética e política dos critérios de legitimação impostos pela “grande cultura nacional”, nas palavras de Ferréz citadas no livro, além de questionarem parâmetros tradicionais de análise literária, como autor, obra, estilo e texto. A autora recorre ainda à noção de “literatura pós-autônoma”, de Josefina Ludmer, para sustentar que essas obras demandam um regime de leitura distinto, capaz de questionar hierarquias de valor literário previamente estabelecidas.

Essa discussão sobre legitimação não se limita, contudo, ao campo estético. Sales relaciona a produção literária marginal-periférica a uma luta mais ampla pelo direito à literatura, conforme a formulação de Antonio Candido. Se a literatura pode ser compreendida como um direito humano e como um direito universal, a produção desses autores também deve ser entendida como parte de uma luta por direitos. Nesse sentido, a fruição da literatura e a possibilidade de escrever e publicar não são privilégios que deveriam estar restritos aos circuitos culturais hegemônicos. A produção marginal-periférica passa, então, a integrar uma luta mais ampla pela democratização do acesso à literatura, tanto no que diz respeito ao direito de consumi-la quanto ao direito de produzi-la e fazer circular diferentes perspectivas e experiências.

Essa necessidade de criar espaços próprios de circulação encontra uma dimensão prática na quarta e última seção do livro, dedicada às estratégias de agenciamento político-cultural desenvolvidas pelos autores para fazer suas produções circularem para além dos circuitos editoriais hegemônicos. Essa seção se mostra especialmente concreta e reveladora porque evidencia que, para Sales, o processo de publicação não pode ser compreendido como uma atividade exterior à produção literária. Ao contrário, publicar, para esses autores, constitui também um ato político. A própria trajetória da literatura marginal-periférica demonstra que, diante da dificuldade de acesso às editoras tradicionais, escritores e coletivos precisaram criar mecanismos próprios para publicar e distribuir suas obras. A fala de Ferréz recuperada por Sales sintetiza essa necessidade ao apontar que era preciso editar os próprios livros porque havia pouco interesse das editoras tradicionais em publicar essas histórias e experiências.

É nesse contexto que Allan Santos da Rosa funda, em 2005, o selo Edições Toró, responsável por publicações de gêneros variados e por uma atuação multifacetada. O projeto não se restringe à publicação de livros, envolvendo também diferentes formas de circulação e divulgação da produção periférica. Sales destaca, ainda, que a atuação desse tipo de iniciativa contribui para que a literatura ultrapasse os limites territoriais das periferias, colocando seus textos em circulação por meio de revistas, coletâneas e outros suportes. Embora as Edições Toró não estejam atualmente em atividade, sua produção permanece significativa para compreender os mecanismos de organização e circulação construídos pela literatura marginal-periférica. Dinha, inspirada pelas Edições Toró, cria, em 2013, junto a um coletivo de mulheres da Rede Poder e Revolução, o selo Me Parió Revolução. Seu diferencial está justamente em ser um projeto gerido por mulheres e dedicado exclusivamente à publicação de autoras, tendo publicado, entre outras escritoras, Carolina Maria de Jesus e Cidinha da Silva. Sacolinha, por sua vez, funda a Associação Cultural Literatura no Brasil e desenvolve projetos voltados à formação e à atuação coletiva. Em todos esses casos, Sales demonstra que os projetos editoriais e culturais não funcionam apenas como veículos de publicação, mas como verdadeiros espaços de ação político-cultural.

Essa dimensão coletiva é fundamental porque evidencia que a literatura marginal-periférica não se estrutura apenas em torno da trajetória individual de seus escritores. A produção e a circulação dos textos fazem parte de um projeto mais amplo de construção de coletividades, formação de leitores e escritores e disputa por espaço simbólico. Dessa maneira, a publicação deixa de representar um fim individual e passa a constituir um instrumento de uma luta coletiva. Os escritores não apenas produzem obras, mas também criam condições para que outros sujeitos possam produzir, publicar e fazer circular suas próprias histórias. A literatura, portanto, transforma-se em prática de agenciamento político-cultural, aspecto que se articula diretamente à ideia de literatura como direito humano discutida por Sales a partir de Antonio Candido.

A dimensão coletiva e política dessa literatura também se articula à discussão sobre gênero, especialmente à condição da escrita feminina dentro e, em alguns momentos, à margem do próprio movimento marginal-periférico, configurando uma espécie de “margem dentro da margem”. Essa questão aparece de duas maneiras centrais ao longo da análise. Primeiramente, na abordagem da obra de Dinha, cuja poesia-denúncia trata da violência de gênero, do genocídio da juventude negra e da experiência de escrever como mulher negra e periférica. A dimensão política dessa escrita é sintetizada pela própria autora na afirmação “escrevo para corromper as estatísticas”, utilizada como epígrafe no livro. Em segundo lugar, a discussão aparece na leitura que Sales realiza das personagens femininas presentes nos contos de Allan Santos da Rosa, como Ceci, Dona Esperança e Pérola, em Reza de mãe. Nessas personagens, são evidenciadas diferentes formas de opressão, a sobrecarga do trabalho doméstico e emocional e as violências que atravessam os corpos femininos periféricos. Mesmo sendo construídas por um narrador homem, essas personagens são analisadas por Sales a partir de uma perspectiva sensível, capaz de provocar o leitor e de evidenciar as complexidades das experiências femininas representadas na obra.

É, contudo, na análise do selo Me Parió Revolução que essa discussão adquire uma dimensão política ainda mais explícita. Um projeto editorial pensado, gerido e executado por mulheres e dedicado à publicação exclusiva de autoras é interpretado por Sales como uma estratégia de agenciamento capaz de responder a uma dupla marginalização: aquela relacionada ao gênero e aquela associada à classe e ao território. Com apoio em depoimentos e posfácios de autoras publicadas pelo selo, a pesquisadora evidencia como essas escritas funcionam como espaços de ressignificação identitária e resistência aos estereótipos depreciativos. Dessa maneira, a ocupação de espaços de fala aparece também como uma forma de reconstruir coletivamente aquilo que foi historicamente silenciado ou apagado. A experiência do Me Parió Revolução, assim como as demais iniciativas analisadas, reforça a compreensão de que escrever, publicar e fazer circular uma obra constituem ações inseparáveis de um processo mais amplo de disputa por visibilidade e reconhecimento.

Ao articular essas diferentes dimensões a diversidade formal, a pluralidade das periferias, a trajetória histórica da literatura marginal, a disputa em torno das nomenclaturas, os modos de leitura acadêmica, o direito à literatura, as estratégias de circulação e as questões de gênero, Traços da periferia apresenta uma compreensão da literatura marginal-periférica que ultrapassa uma abordagem meramente temática ou sociológica. Um dos principais méritos da obra está justamente em tratá-la como um projeto estético-político dotado de estratégias próprias de produção, circulação e legitimação e, sobretudo, como literatura, sujeita a uma análise formal e conceitual rigorosa. A articulação entre o aporte teórico com autores como Rancière, Deleuze e Guattari, Ludmer e Ravetti e o material empírico composto por entrevistas, manifestos, depoimentos e registros de projetos e editoras constitui um dos pontos fortes do estudo. Da mesma forma, destaca-se a disposição de Sales para problematizar, sem recorrer a simplificações, as tensões existentes no interior do próprio movimento, como as disputas em torno das nomenclaturas, o lugar ocupado pelas mulheres, a heterogeneidade das periferias e os limites da aplicação de determinados conceitos teóricos. Nesse sentido, Traços da periferia mostra-se uma leitura relevante para aqueles interessados na literatura brasileira contemporânea, nos estudos culturais, na sociolinguística e nas políticas de legitimação do campo literário. Mais do que apresentar uma produção que historicamente ocupou as margens, Sales convida o leitor a deslocar o próprio olhar e a questionar as categorias a partir das quais se define o que é centro, o que é margem e, sobretudo, o que pode ser reconhecido como literatura.

EDUNEB recebe propostas de livros para serem submetidos ao Edital da FAPESB até 20/08/26

A Eduneb está recebendo originais para Edital da Fapesb.

Professores pesquisadores da UNEB interessados em se inscrever no Edital Nº 018/2026 da FAPESB – Apoio à publicação científica, tecnológica ou da popularização da ciência – podem entrar em contato com a EDUNEB e enviar seus originais para o e-mail edunebsecretaria@uneb.br, até o dia 20/08/2026, para que os trabalhos submetidos sejam avaliados por pareceristas e pelo Conselho Editorial da Editora. 

Acesse o Edital da FAPESB no link:

https://www.fapesb.ba.gov.br/edital-fapesb-no-0182026-apoio-a-publicacao-cientifica-tecnologica-ou-de-popularizacao-das-ciencias

Livros com Inscrições Homologadas após recursos no Edital 017/2026 EDUNEB 2026/2027 para publicação impressa de Livros Científicos

A Editora da UNEB (EDUNEB) torna pública a lista dos títulos dos originais com inscrições homologadas após recursos no Edital 017/2026, referente à Seleção de Livros Científicos para publicação impressa no ano de 2027.

ACESSE Edital completo AQUI.

Lista de Títulos Homologados

187000012 A PERÍCIA CONTÁBIL E OS CÁLCULOS FINANCEIROS
187000029AS DUAS FACES DA MOEDA: UM ESTUDO SOBRE O IMAGINÁRIO POLÍTICO DOS DIREITOS HUMANOS NO BRASIL
187000015BANDAS MARCIAIS NA ESCOLA: IMPACTOS NA TRAJETÓRIA ESTUDANTIL EM GOIÂNIA
187000063CAMINHOS DAS LINGUÍSTICA HISTÓRICA: DIÁLOGOS INTERDISCIPLINARES – UMA HOMENAGEM A ROSA VIRGÍNIA MATTOS E SILVA
187000059CARVÃO A ÁRTIR DE BIOMASSA
187000037CONTRIBUIÇÕES DA FONÉTICA APLICADA À FORMAÇÃO DOS PROFESSORES DE LÍNGUAS
187000041(DES)CAMINHOS ABOLICIONISTAS NO PERIÓDICO “O ASTERÓIDE”(1887-1889): CONTROLE PENAL E SUBTRACÃO DE CIDADANIA
187000057DIÁLOGOS EM ANÁLISE DO COMPORTAMENTO: A CIÊNCIA A SERVIÇO DE TODOS
187000018DIREITO PENAL, RACISMO E SOCIEDADE
187000042EDUCAÇÃO LITERÁRIA PARA QUEM, AFINAL? PROGRAMAS E PROJETOS ESTRUTURANTES NO ENSINO MÉDIO DA BAHIA
187000019ENTRE OS SERTÕES DE BELO MONTE: LITERATURA, FÉ E RESISTÊNCIA TERRITORIAL
187000064INCLUIR COMO DIREITO E MÚLTIPLAS (IM) POSSIBILIDADES
187000022  LINGUÍSTICA APLICADA & DISCURSO PEDAGÓGICO: CONVERGÊNCIAS & NOVAS CONFIGURAÇÕES
187000023LÍNGUA AFIADA: MULHERES QUE CORTAM O SERTÃO SABER, PODER E SER EM TORTO ARADO
187000060LITERATURA COMO ECONOMIA
187000068LITERATURA DE TEMÁTICA E AUTORIA NEGRA BRASILEIRA: VOZES INSURGENTES NO PNLD LITERÁRIO
187000016MATERNAR ENTRE AUSÊNCIAS E RESISTÊNCIAS: VOZES DE MULHERES, CUIDADO E ENFRENTAMENTOS NA EXPERIÊNCIA DE SER MÃE
187000014MUITA TERRA E POUCO RASTRO: HISTÓRIAS ORAIS DA SAGA DO VAQUEIRO NO MÉDIO SUDOESTE DA BAHIA
187000058  O COLETIVO CULTURA E ARTE DO CABULA – CULTARTE E A OPERADORA DE RECEPTIVO POPULAR AQC: NA TESSITURA EM REDE ECO SOLIDÁRIA DO TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA NO QUILOMBO CABULA
187000065O DITO E O INDIZÍVEL: UMA ESCUTA SOCIAL SOBRE LEITURA, REPRESENTAÇÕES E RESISTÊNCIA NA UNIVERSIDADE PÚBLICA
187000033PAISAGENS SONORAS DE SALVADOR: PERFORMANCES, MEMÓRIAS E ATIVISMOS NA CIDADE DA MÚSICA
187000011POVOS INDÍGENAS E A VIVÊNCIA ACADÊMICA: DA ETNOGÊNESE À RETERRITORIALIZAÇÃO
187000066PSICOLOGIA & IA: ENTRE A INOVAÇÃO E O CUIDADO: UMA ABORDAGEM ÉTICA, CRÍTICA E HUMANIZADA PARA O USO DA TECNOLOGIA NA PRÁTICA PSICOLÓGICA
187000024PROFISSÃO DOCENTE E DIVERSIDADE NA EDUCAÇÃO BÁSICA DA BAHIA
187000055SABERES DO ALTO SERTÃO BAIANO: ENTRE-LAÇOS INTERDISCIPLINARES
187000028TERREIROS QUE CURAM: EPISTEMOLOGIAS DO CUIDADO EM SAÚDE NO CANDOMBLÉ
187000030TERRITÓRIO: ENCARCERAMENTO EM MASSA, DIREITOS E ARTICULAÇÕES ANTIPRISIONAIS
187000061VOZES DO TEMPO: CULTURA ESCRITA E SÓCIO-HISTÓRIA LINGUÍSTICA DO BRASIL

Livros com Inscrições Homologadas no Edital 017/2026 EDUNEB 2026/2027 para publicação impressa de Livros Científicos

A Editora da UNEB (EDUNEB) torna pública a lista dos títulos dos originais com inscrições homologadas no Edital 017/2026, referente à Seleção de Livros Científicos para publicação impressa no ano de 2027.

A Interposição de recursos será entre 9 e 10 de junho, de acordo com o item 8 do Edital.

ACESSE Edital completo AQUI.

Lista de Títulos Homologados

187000012 A PERICIA CONTÁBIL E OS CÁLCULOS FINANCEIROS
187000015BANDAS MARCIAIS NA ESCOLA: IMPACTOS NA TRAJETÓRIA ESTUDANTIL EM GOIÂNIA
187000063CAMINHOS DAS LINGUÍSTICA HISTÓRICA: DIÁLOGOS INTERDISCIPLINARES – UMA HOMENAGEM A ROSA VIRGÍNIA MATTOS E SILVA
187000059CARVÃO A ÁRTIR DE BIOMASSA
187000037CONTRIBUIÇÕES DA FONÉTICA APLICADA À FORMAÇÃO DOS PROFESSORES DE LÍNGUAS
187000041(DES)CAMINHOS ABOLICIONISTAS NO PERIÓDICO “O ASTERÓIDE”(1887-1889): CONTROLE PENAL E SUBTRACÃO DE CIDADANIA
187000018DIREITO PENAL, RACISMO E SOCIEDADE
187000022  LINGUÍSTICA APLICADA & DISCURSO PEDAGÓGICO: CONVERGÊNCIAS & NOVAS CONFIGURAÇÕES
187000023LÍNGUA AFIADA: MULHERES QUE CORTAM O SERTÃO SABER, PODER E SER EM TORTO ARADO
187000060LITERATURA COMO ECONOMIA
187000068LITERATURA DE TEMÁTICA E AUTORIA NEGRA BRASILEIRA: VOZES INSURGENTES NO PNLD LITERÁRIO
187000016MATERNAR ENTRE AUSÊNCIAS E RESISTÊNCIAS: VOZES DE MULHERES, CUIDADO E ENFRENTAMENTOS NA EXPERIÊNCIA DE SER MÃE
187000014MUITA TERRA E POUCO RASTRO: HISTÓRIAS ORAIS DA SAGA DO VAQUEIRO NO MÉDIO SUDOESTE DA BAHIA
187000058  O COLETIVO CULTURA E ARTE DO CABULA – CULTARTE E A OPERADORA DE RECEPTIVO POPULAR AQC: NA TESSITURA EM REDE ECO SOLIDÁRIA DO TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA NO QUILOMBO CABULA
187000033PAISAGENS SONORAS DE SALVADOR: PERFORMANCES, MEMÓRIAS E ATIVISMOS NA CIDADE DA MÚSICA
187000024PROFISSÃO DOCENTE E DIVERSIDADE NA EDUCAÇÃO BÁSICA DA BAHIA
187000028TERREIROS QUE CURAM: EPISTEMOLOGIAS DO CUIDADO EM SAÚDE NO CANDOMBLÉ
187000030TERRITÓRIO: ENCARCERAMENTO EM MASSA, DIREITOS E ARTICULAÇÕES ANTIPRISIONAIS
187000061VOZES DO TEMPO: CULTURA ESCRITA E SÓCIO-HISTÓRIA LINGUÍSTICA DO BRASIL

A EDUNEB participou da 38ª Reunião Anual da ABEU

Reunião Anual da ABEU promoveu debate sobre o futuro da edição universitária.

Evento foi sediado na UFBA, em Salvador, entre os dias 12 e 15 de maio, e contou com editores, pesquisadores e profissionais do livro de todo o Brasil.

Toda equipe EDUNEB esteve no evento realizando cursos e participando de debates.